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A Galiza lusófona no pensamento de Ernesto Guerra da Cal PDF Print E-mail
Written by Carlos Durão   

Ernesto Guerra da Cal (Ferrol, 1911-Lisboa, 1994) foi o primeiro poeta galego moderno que tratou temas universais, no espaço e no tempo, desde “dentro” e desde “fora”[1] . Foi desde logo o poeta galego que mais eco teve dentro e fora da Galiza, como testemunha a abundandíssima bibliografia transnacional e transcontinental a que deu origem a sua obra[2] . E foi, em fim, o professor galego de mais prestígio internacional, autor da por muitos conceitos monumental “Língua e Estilo de Eça de Queiroz”[3], e duma viçosa obra devotada à nossa comum cultura galego-portuguesa, para a que viveu e pela que padeceu até morrer no exílio, consequente com as suas ideias e firmes ideais. “Para muitos, um português afastado da Galiza; para outros, um galego que professava de português; para alguns, um galego que pouco tinha a ver com Galiza… A verdade é mais singela; foi um galego radical. Mas à sua maneira”[4].

Em S. Martinho de Quiroga, na casa que os vizinhos nomeiam “Tabacalera”, decorreu a meninice de Ernesto[5] , desde os poucos meses[6] até aos nove anos, em que iniciou os seus estudos, e depois de jeito intermitente nas férias do verão. O Vale de Quiroga está constantemente presente na sua poesia, em comunhão com a paisagem, o rio, os ciprestes. Para Otero Pedraio o Sil é o seu “rio de sonho e tempo”. O seu primeiro poemário, “Lua de além-mar”, está dedicado à sua tia queiroguesa “Teteyo, tia e mãe, que gorentou a minha infância no Sil com mundos solerminhos de fantasia poética”.

Chega a Madrid com 11 anos, estuda bacharelato no Instituto General y Técnico San Isidro, cursa estudos superiores na Faculdade de Filosofia e Letras, onde faz amizade com os professores Américo Castro, Navarro Tomás e José Fernández Montesinos. Assiste com regularidade à tertúlia dos galeguistas no Café Regina, onde conheceu Otero Pedraio, Soares Picalho, Vilar Ponte, Ramom Cabanilhas, Blanco Amor, Serafim Ferro e outros[7] . No Ateneo conhece muitos dos integrantes da “Geração do 27”[8] ; no grupo de teatro Anfistora participa como ator e mais no ambiente cultural[9] ; faz dobragens com Buñuel; assiste às reuniões de Pablo Neruda na Casa de las Flores, onde conhece escritores hispanoamericanos[10] ; escreve os seus primeiros versos; faz de “dicionário vivente” para os “Seis poemas galegos” de Lorca[11], com quem conviveu na Residencia de Estudiantes; participa em greves, é preso e processado; assiste ao assalto ao Cuartel de la Montaña, alista-se como voluntário nas Milícias Galegas ao estourar a guerra civil no 1936, combate pela legalidade republicana na frente de Toledo, e passa à Secção do Exterior do Servicio de Información Militar, do Ministério da Guerra. No 1938 aparecem as suas primeiras publicações poéticas em Nova Galicia, semanário patrocinado pelo Comissariat de Propaganda da Generalitat de Catalunya. Na Catalunha encontra Castelão e Serafim Ferro[12], aprende catalão; é enviado a Nova Iorque em missão oficial pouco antes da derrocada da frente do Ebro, e ali fica ao rematar a guerra civil[13], para continuar os seus estudos interrompidos.
Doutora-se em Filologia Românica na Columbia University, e no 1951 é catedrático da New York University. Apesar do seu intenso labor acadêmico
desenvolvido ao longo da sua brilhante carreira universitária[14], não deixa de participar na vida cultural da Casa de Galiza de Nova Iorque. E publica, anos mais tarde, “Lua de Além-Mar” e “Rio de Sonho e Tempo”[15], onde volta às sua origens anímicas em Quiroga e no Sil[16], no Caurel e no Lor, que teria presentes ao longo de toda a sua vida[17].

Reformado, Ernesto volta à Europa, mas não à sua Galiza, que considera ocupada pelas forças dum regime ilegal[18]. Estabelece-se em Lisboa, levando consigo, muito presentes, o Martinho, que é o nome dum trasno que habitava a sua casa (Melrose), como também os canouros, os remédios mágicos da sua infância, e todo o mundo feliz com ela associado.

Lembra-o ali o seu amigo, o poeta Franco Grande: “É a sua uma Galiza longínqua, a da sua infância no Sil. Ou seja, uma Galiza inexistente. Criada e recriada por ele no seu cérebro, ao longo de muito tempo e sempre no longínquo. É por isso mesmo uma Galiza necessária para ele. Não importa que não exista na realidade. O que importa é que essa realidade está viva no Ernesto. E ele vive-a, criando-a e recriando-a cada dia, falando com o Martinho, jogando com ele, fazendo-se trasnadas um ao outro. Isto, como é natural, leva-o a um drama total; convicto de que esta Galiza nossa já não existe, porque nada tem a ver com a sua, o Ernesto nega-se de cheio à assimilação castelhana e converte-se em português –que para ele é ser galego atual. O que deveríamos ter sido e a história nos negou. (…) Agora compreendo melhor o Ernesto. (…) A Galiza da sua infância no Sil aparece-lhe como que realizada, na sua plenitude, no Eça. Portugal e a cultura portuguesa realizaram o que à Galiza a história lhe impediu. Toda a sua obra está presidida por este pensamento. E de maneira tal que ele fala sempre de portugalego –não de português ou galego ailhados. Eça e Rosalia são portugalegos. São lusíadas. O português, para o Ernesto, é a sua “Ítaca perdida e achada”. (…) Dãome voltas no pensamento estas palavras suas: “Eu sou separatista. E já há muito tempo que me separei”. (…) Só este [o português] existe realmente e só ele poderá sobreviver entre os impérios linguísticos de hoje. O português é uma necessidade para a sua [do galego] salvação.”[19]

Mas o Ernesto simplesmente escolhe a linha dos portugueses que reconhecem as afinidades e identidades das terras a norte e sul do Minho, como, por só citar dous, Manuel Rodrigues Lapa, nos nossos dias, ou, antes, José Valentim Fialho de Almeida (1857-1911). Diz este: “Oito séculos de fronteiras não conseguiram borrar as comunidades de sangue ancestral, as analogias profundas do tipo étnico, e nos agregados da vida social e moral contemporânea, esses variegados e complexos factores que tão fraternalmente jungem o carácter galego ao português. (…) E como não seria assim, se o português é em grande parte o descendente do povoador galego que logo aos primeiros alvores da nossa independência política radiou por todas as províncias lusitanas, desde o Minho ao Mondego…? (…) Assim, não há nome de povoação portuguesa, da Estremadura para cima, que não tenha seu similar em terras da Galiza, certo rememorando as saudades do fundador galego pela “terrinha” natal…(…) Com os apelidos das famílias, da mesma forma que com os nomes das povoações, a mesma lei de hereditariedade que os transplantou de fronteira segue perpetuando-os na margem portuguesa…(…) Porém, acima de tudo… um laço antigo, mais indissolúvel e profundo, liga entre si galegos e portugueses tornando-os não só solidários perante as tradições gloriosas do passado, como também, quem sabe? perante alguma futura obra seleccionadora e perfeita, que novamente os aproxima na Europa, como já providencialmente os está aproximando no Brasil. Este laço é a existência até quase os meados do século XV duma literatura e duma poesia popular comuns, a ponto de se não saber nos Cancioneiros quais trovadores são galegos e quais são portugueses, de tal modo estilo literário e língua se confundem. (…)… podemos dizer, sem maiormente ferir o escrúpulo científico, que Portugal foi a primeira colónia galega.”[20]

Ernesto considera-se “galego errante”, “emigrado”, “errante e navegante Ulisses” que sonha retornar à sua Ítaca Galiza. Quiroga é Galiza para ele. Lembra a sua geografia urbana e dos arredores, e gente galegofalante que lhe ensinou a amar a língua. A lembrança da Galiza vai sempre unida à dos anos da sua infância, até na sua obra mais madura. Mas a Galiza não acaba na raia húmida nem na raia seca, e Ernesto, consequente com as suas ideias, trabalha e apoia o trabalho doutros em direção da reintegração do idioma galego na lusofonia. Assim, foi Presidente de Honra da “Comissão para a Integração da Língua da Galiza no Acordo da Ortografia Unificada”, que possibilitou a presença duma Delegação de Observadores de Organizações Não Governamentais galegas nos Encontros do Rio de Janeiro (1986) e de Lisboa (1990) para conseguir uma ortografia unificada da língua comum.

REFERÊNCIAS


[1] Tal era a opinião de Eugénio Montes, autor da conhecida “Estética da moinheira”.

[2] Pode consultar-se, a jeito de introdução, “Lua de Além-Mar e Rio de Sonho e Tempo”, nova edição revista e anotada pelo autor, num só volume, Associação Galega da Língua, Corunha, 1991 [LAMRST].

[3] Dentre as diversas edições que teve desde 1954, a definitiva é a portuguesa de Elsie Allen da Cal, Livraria Almedina, Coimbra, 1981.

[4] Xosé Luis Franco Grande: “Ernesto Guerra da Cal na sua Ítaca achada”, “Homenagem a Ernesto Guerra da Cal”, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1997 [HEGC Coimbra].

[5] Ernesto Romão Laureano nasceu em Ferrol no 19 de dezembro de 1911, na rua Sagasta, no 142, 2o. O seu pai era o médico ferrolano D. Ramón Pérez Cal (sempre conhecido pelo matronímico, como amiúde acontece entre nós), que fora companheiro e amigo íntimo de Castelão na Faculdade de Medicina de Santiago. A sua mãe era a quiroguesa D. Laura Güerra Taboada, filha do veronês Carlo Guerra Scoppoli, que se formou engenheiro em Viena e arquiteto em Roma e foi contratado por Lesseps para o projeto de construção do Canal do Panamá, depois contratado para a construção de caminhos de ferro na Espanha, dirigindo o de Palença à Corunha: por sua vez era filho do conde Scoppoli, lombardo de raiz italiana (casado com Paola, lombarda de etnia austríaca), quem, por ter feito causa com Garibaldi, fora despossuído do título. Guerra da Cal é nome civil, não pseudónimo (e assim fica consignado no Registo de Nascimentos de Ferrol), sendo a ordem dos apelidos a natural em Portugal e nos EUA, onde se naturalizou em 1944, e a que têm o seu filho Eduardo Ucelay da Cal e a sua viúva Elsie Allen da Cal (embora não o seu irmão Fernando Pérez Güerra).

[6] Morre-lhe o pai quando tinha menos dum ano. A mãe vai estudar magistério a Madrid e ele fica com a tia Consuelo (“Teteyo”), pofessora da Escola Feminina de Quiroga, situada na rua da Cal. A mãe consegue lugar (lecionara antes em Castro Verde e Pol) e leva os filhos para Madrid; Ernesto, com 9 anos, tem morrinha e volta aos poucos meses, só indo com quase 12 anos outra vez estudar a Madrid.

[7] Também conheceu Emílio Gonçales Lopes e, nas suas tempadas na Galiza, Fole, Cunqueiro, Carvalho Calero, etc. Com os galegos falava galego sempre.

[8] Os poetas Juan Ramón Jiménez, Luis Rosales, Manuel Altolaguirre.

[9] Dirigiam-no Lorca e Pura M. de Ucelay, mãe de Margarita Ucelay, a primeira esposa de Ernesto.

[10] Nicolás Guillén, Lino Novás Calvo, etc.

[11] Que ficara deprimido pela morte do seu amigo toureiro Ignacio Sánchez Mejías.

[12] E conhece Rafael Dieste, Florêncio Delgado Gurriarán e Ramón Valenzuela.

[13] Evidentemente no Estado Espanhol era, por dizê-lo diplomaticamente, persona non grata. Ele próprio nos lembra que um tio-avô seu, Inocêncio, “foi assassinado pelos franquistas em Vigo”.

[14] Que seria prolixo demais recensear aqui. Baste dizer que recebeu as mais altas condecorações e reconhecimentos dos EUA, do Brasil e de Portugal, mas não da sua Terra natal. Para mais informação neste sentido pode consultar-se “Quem foi Ernesto Guerra da Cal?”, por Carlos Durão, FerrolAnalisis no7, Club de Prensa de Ferrol, 1995..

[15] Editora Galaxia, Vigo, 1959 e 1963, respetivamente.

[16] Lorca alcunhava-o de “Ernesto del Sil”.

[17] Anos depois lembra no poema “Pátria”:

aquele rapaz loiro
que chorando partiu
um dia crepuscular e montanhoso
de Quiroga
no Sil…

(em Futuro imemorial: manual de velhice para principiantes, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1985). Alguns outros poemários de Ernesto Guerra da Cal são: Deus, Tempo, Morte, Amor e outras bagatelas, Livros Horizonte, Lda., Lisboa, 1987; Espelho cego, Plaza de la Marina, no.35, Málaga, 1990; Coisas e loisas, Papeles del Alabrén, IV, Málaga, 1992, etc., além doutros projetos diversos que tinha quando morreu no 26 de julho de 1994, entre eles um livro sobre os lorquianos Seis poemas galegos (comunicação pessoal).

[18] Aquela “coitada, triste e bela Pátria minha”, da que diz que “nunca deixei de estar ligado a ela pelo umbigo”.

[19] “Ernesto Guerra da Cal”, em “Homenagem a Guerra da Cal”, revista Nós, revista internacional galaicoportuguesa de cultura, nos 13-18, janeiro/dezembro 1989, Ponte Vedra–Braga [HGC Nós].

[20] Em “Textos e documentos: a Galiza nos escritores portugueses”, por Ernesto Guerra da Cal, HGC Nós. E o próprio Ernesto nos lembra, em nota, que Luís Vaz de Camões provinha da linhagem galega do poeta e guerreiro galego Vasco Pires de Camões, da estirpe dos Caamanho de Noia.